Mensagem – Autobiografia de um coco


AUTOBIOGRAFIA DE UM COCO

Nasci na copa de uma árvore robusta, que crescera num solo arenoso, numa longa faixa da costa. Lá do alto desfrutava de uma vista maravilhosa de tudo aquilo que me rodeava.

Era muito feliz e sentia-me orgulhoso de ser um coco. Pensava que meu pai era maravilhoso. Até que um dia, ouvi algumas pessoas dizerem mal dele e de toda a família. Um deles disse:

“Que calor este. Se ao menos este maldito coqueiro nos desse alguma sombra. Não posso com os coqueiros. Tão rugosos, tão feios e disformes. Sem folhas nem flores e sem qualquer cheiro.”

Isto fez com que me sentisse tão desgraçado que algo mudou bem dentro de mim. Como é que não vira tudo isto? Realmente eu era feio, quase disforme. Sentia-me envergonhado. Eu decidi que nunca mais deixaria fosse quem fosse ver a minha feiura interior.

Comecei a construir ao redor de mim uma capa muito densa, dura e peluda, para proteger o meu interior dos olhares indiscretos. Para além disso, nem dentro de mim havia algo de bom. Se alguém me tivesse visto por dentro, desprezar-me-ia e recusar-me-ia ainda mais. Por isso teci ao redor de mim uma capa de matéria áspera, peluda, de cor parda, desagradável ao tato, para que ninguém se atrevesse a tocar-me. Não gostava que me tocassem nem acarinhassem.

Ao fim de algumas semanas, em que estive deprimido meditando sobre a minha desgraça e quase sem falar com meus irmãos e irmãs fui, de repente surpreendido por um impetuoso temporal. Todos éramos sacudidos violentamente. Horrorizado, agarrei-me ao meu pai, pois temia ser arrancado.

Tudo inútil, porém. Perdi o controle e senti que era atirado lá para baixo caindo no escuro e no vazio. Fiquei atordoado ao bater no chão, magoado e dolorido com a pancada. Só e cheio de medo, pensei que a única coisa que me esperava era a morte. Sem dúvida chegara a minha hora… pensei quando um grupo de viajantes se aproximou de mim.

Mas que agradável surpresa foi para mim ouvir um deles dizer:

“Olha que coco tão bonito! Realmente tivemos sorte!”

Não queria acreditar no que ouvia. Senti que pegavam em mim me agitavam junto ao ouvido de um jovem. O nariz dele começou a cheirar-me e os seus lábios murmuravam dirigindo-se diretamente a mim:

Que coco bom, doce e saboroso você deve ser! Alegro-me por ter lhe encontrado”.

O quê? Eu bom e doce?! Tinha que haver algum erro. Certamente eu não passava de uma coisa estúpida, disforme, feia e insípida, que se contentava com que o deixassem em paz.

O rapaz começou a tirar, com cuidado, os pêlos ásperos a pardos, que eu fizera crescer á volta de mim para me proteger. Fê-lo com grande delicadeza como se não quisesse magoar-me. Pela primeira vez em muitos meses voltei a sentir-me feliz. E nem sequer enxerguei que o rapaz pegava uma grande pedra e começava a bater-me com muita força. Ia me golpeando cada vez com mais força e energia. Gritando de dor, quis perguntar-lhe o que procurava e pedir-lhe que parasse. Ele deveria saber que dentro de mim apenas havia feiura. Que esperava encontrar debaixo de minha casca insensível e dura?

Uns segundos mais tarde ouviu-se um forte estalido. Senti que me partiam em dois. Das minhas feridas começou a sair um suco. E, com surpresa minha, o rapaz e os amigos iam-no bebendo. Com os seus gestos de satisfação queriam dizer que me estavam apreciando.

A minha maior surpresa foi quando, depois de separarem as duas partes da mina casca, arrancaram algo do meu interior. Algo de imaculado. O meu interior era belo e era evidente que o comiam com gosto.

“Afinal, as pessoas gostam de mim!” , exclamei comovido. ” Não sou feio nem inútil. Que satisfação dar tanto prazer as pessoas que fizeram com que finalmente, acreditasse em mim!

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